“O q defta molher mais fe pode louuar he a continecia e honeftidade co que se procedeo andado entre tantos foldados feita foldado comendo & dormindo na cama entre elles, vencendo fe afsi melma q he a maior de todas as victorias.”
“Descrição do Reino de Portugal” por Duarte Nunez do Leão, 1610
Apesar de ter tudo o que posso almejar, a monotonia da vida na corte real nunca foi algo desejado por mim. Ao refletir sobre a minha vida, sinto que me falta um pedaço da alma.
Além de nomear o meu filho Moço da real câmara, o rei concebeu-me diversas mercês. Recebi duzentos cruzados para ajudas de custo, quatro alqueires de trigo por mês e um aumento da tença anual para 15 mil réis.
Filipe II, também chamado de Filipe, o Piedoso, foi o Rei da Espanha e Portugal de 1598 até sua morte, em 1621. Nasceu a 14 de abril de 1578 em Madrid. É filho de D. Filipe I de Portugal e da sua quarta mulher, D. Ana de Áustria.
A receção foi calorosa e acolhedora. Logo ali percebi o quanto o povo e a nobreza me admirava.
Alguns meses após a minha chegada, recebi uma carta assinada pelo rei D. Filipe III de Espanha e II de Portugal, solicitando a minha presença no palácio real em Madrid.
Em Lisboa, procurei reconectar-me com a minha irmã, a única família que eu tinha. Não esperava que a vida na capital fosse tão tranquila, um cenário tão diferente ao que estava habituada.
Os Mazaganistas, como ficaram conhecidos, foram quatro ou cinco gerações de pessoas que viveram isoladas numa área de meia dúzia de hectares, em permanente sobressalto e de carência de bens de alimentação e condições de conforto, desenvolvendo uma série de subterfúgios para atenuar o tédio e a ansiedade, que caracterizou esta comunidade resistente e guerreira.
A morte do meu marido deixou em mim um amargo vazio. À medida que a guerra avançava, as condições de vida pioravam e já nada me prendia em Mazagão. Senti-me obrigada a regressar a Portugal, para poder dar um futuro melhor ao meu filho.
A notícia chegou rápido. Manuel havia morrido em batalha...
Os anos passavam e a guerra em Mazagão intensificava-se. Assim, o meu marido foi chamado para combater os infiéis, deixando-me sozinha com o nosso filho.
Eventualmente apaixonei-me por ele e começamos uma família.
O meu maior apoio foi Manuel, um soldado que me acompanhou na guerra e com quem fui viver.
Boca a boca, depressa correu a notícia pela cidade revelando que eu, famoso António Rodrigues, fora soldado enquanto donzela. Chegando a novidade aos ouvidos do governador, tive de retomar a minha vida de mulher, perdendo, assim, a minha querida Beatriz.
O que não sabiamos, era que o padre de Mazagão estaria fora do confessionário e ouvir todas as conversas e revelações feitas naquela noite.
Ao ouvir as minhas explicações, contou-me que já sabia o meu segredo. Combinámos manter o nosso romance um mistério, longe das bocas da cidade.
Revelei a minha identidade à mulher em quem pensava todos os segundos. Expliquei-lhe a minha infância e os meus motivos, porém a maior revelação seria feita por Beatriz.
Ao longo de algumas semanas, eu e Beatriz encontrámo-nos às escondidas na igreja. Várias trocas de cartas e olhares levaram-me a contar-lhe a verdade.
“Tinha tanta fama de caualleiro esforçado efta en euberta donzella que por illo & por parecer hum mancebo mui gentilhomem & de muita graça era mui bem olhado & fauorecido das donzelas de Mazagão, moormente de hua filha de hum caualleiro principal.”
“Descrição do Reino de Portugal” por Duarte Nunez do Leão, 1610
Quando a vi pela primeira vez, não consegui desviar o olhar. Todos os homens estavam fascinados por Beatriz, e quem os podia culpar? Uma mulher tão deslumbrante e educada era o objetivo de qualquer um.
Comecei a frequentar salões de baile e a receber bastante atenção feminina, mas foi uma mulher em especial que me cativou, Beatriz de Meneses, filha de um nobre português.