O mar acalmava-me e a presença do meu pai foi sempre positiva, compreendia-me e ficava feliz que o acompanhasse, mesmo que por poucas horas.
Aqui conhecerás uma grande guerreira portuguesa...
Bem-vindo!
Esta história é baseada na vida da guerreira aveirense Antónia Rodrigues. Ao longo do website, através do Scrollytelling, será contada a vida da figura histórica.
A 31 de março de 1580 na antiga freguesia de São Miguel, em Aveiro, nasce Antónia Rodrigues.

A sua infância foi dura e desafiante, marcada pelas várias dificuldades vividas pelo povo do século XVI.
Até aos seus 12 anos, viveu numa pobre casa de pescadores onde fez de tudo para sobreviver.
Conflitos, confusões e sarilhos é o que me recordo da minha infância. Não se pode esperar mais de uma menina que cresceu num bairro de pescadores do século XVI.
Talvez se tivesse tido uma infância mais feliz, não teria de enfrentar os restantes desafios que encontrei ao longo da minha vida.
Aos 10 anos, a minha mãe levou-me para Lisboa, para viver com a minha irmã, achava que lá teria melhores condições de vida. A verdade é que preferia ter ficado a ajudar o meu pai na pesca em Aveiro.
Sabias que...
O Scrollytelling foi inventado em 2012 pela New York Times.
Os vários botões irão demonstrar alguns factos ao passar o cursor.
“Na villa d’Aueiro de hu Simão Rodriguez e de fua molher Lianor Diaz nafceo hua filha per nome Antonia. Aqual trouxe fua mãi a efta cidade de Lisboa para outra fua filha cafada que aqui tem.”
“Descrição do Reino de Portugal” por Duarte Nunez do Leão, 1610
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Todas as crianças da capital me excluíam e ameaçavam. Alguns rapazes entravam em conflitos e lutas comigo. Felizmente, nunca fui uma menina como as outras e sempre me consegui defender sozinha.
Entre murros e pontapés, conseguia mantê-los afastados. Deixava um a sangrar, outro a mancar. Nunca tive muitos amigos, porém inimigos não me faltavam.
Sentia-me sozinha e perdida, tinha de encontrar uma forma de escapar, de ser levada a sério, tratada com respeito. Estava disposta a arriscar a minha vida por isso, a partir sem regresso garantido.

Sempre pensei no que seria a minha vida se fosse um homem. Teria menos responsabilidades, mais respeito. Talvez teria até amigos.
Após pensar nas possibilidades, descobri um plano.
Fingi ser um grumete e dirigi-me para o Cais da Ribeira onde, às escondidas, entrei numa caravela de trigo com destino a Mazagão.
Por mais horrível que tenha sido a guerra, senti-me livre e tive finalmente uma oportunidade para me destacar, para ser um nobre homem, um nobre cavaleiro. E não deixei essa oportunidade escapar.
Enquanto militar, liderei uma emboscada contra três infiéis que planeavam uma ofensiva noturna. A emboscada provou-se bem sucedida e, com 14 anos, passei da infantaria à cavalaria. Assim, ganhei o respeito e admiração dos meus colegas soldados.
Em Lisboa, fui maltratada pela minha irmã e cunhado, que não entendiam a minha maneira de pensar, diferente das demais meninas da minha época. Não me consegui adaptar ao novo local e ao modo de vida que a minha família me queria impor.
A viagem foi mais longa do que alguma vez conseguiria imaginar. Para não chamar a atenção, dormia entre os marinheiros e usava trapos que apertavam os meus seios, mantendo-os lisos como os dos outros com quem dividia o camarote.
Ao fim de muitos meses, descobri que o mestre fez uns acordos com outrem quanto ao carregamento de trigo. Com medo de ser vingado, alistou-me no exército e rapidamente a vida no navio se transformou em vida no campo de guerra.
Pouco a pouco, fui conseguindo dinheiro, amealhado e roubado, e com ele comprei trajes masculinos.
Quando tinha tudo preparado, peguei numa tesoura e cortei o cabelo, curto, como os pescadores que via embarcar em caravelas à procura de uma vida melhor.
António Rodrigues era o meu nome.
Em finais do século XVI, em Aveiro, a instabilidade da vital comunicação entre a Ria e o mar levou ao fecho do canal, impedindo a utilização do porto, provocando uma grande diminuição do número de habitantes, e, consequentemente, criando uma grande crise económica e social.
“(...) feruio naquella viagem de grumette tam deftramente como fefora homem que fizera fempre aquelle officio, trepando pelo mafto a tomar as velas & fazendo tudo o mais como hum deftro marinheiro, mudádo o nome de Antonia em Antonio.”
“Descrição do Reino de Portugal” por Duarte Nunez do Leão, 1610
As caravelas eram capazes de transportar centenas de homens e toneladas de mercadorias. Possuíam uma ou mais velas grandes e altas de formato, geralmente, retangulares. Estas velas eram presas em altos mastros.
As caravelas conseguiam obter uma boa velocidade em dias de vento forte. Porém, como os sistemas de navegação da época eram precários, muitas vezes os navegadores saíam das rotas originais se perdendo pelo oceano.
Desde 1486 que é conhecida a presença portuguesa em Mazagão.
Mazagão tinha mais de 500 habitações, 10 igrejas e ermidas, Hospital da Misericórdia, Cadeia e Vedoria, para além dos necessários equipamentos de logística militar e de bens de consumo.
O que devo fazer?
“O q defta molher mais fe pode louuar he a continecia e honeftidade co que se procedeo andado entre tantos foldados feita foldado comendo & dormindo na cama entre elles, vencendo fe afsi melma q he a maior de todas as victorias.”
“Descrição do Reino de Portugal” por Duarte Nunez do Leão, 1610
Apesar de ter tudo o que posso almejar, a monotonia da vida na corte real nunca foi algo desejado por mim. Ao refletir sobre a minha vida, sinto que me falta um pedaço da alma.
Além de nomear o meu filho Moço da real câmara, o rei concebeu-me diversas mercês. Recebi duzentos cruzados para ajudas de custo, quatro alqueires de trigo por mês e um aumento da tença anual para 15 mil réis.
Filipe II, também chamado de Filipe, o Piedoso, foi o Rei da Espanha e Portugal de 1598 até sua morte, em 1621. Nasceu a 14 de abril de 1578 em Madrid. É filho de D. Filipe I de Portugal e da sua quarta mulher, D. Ana de Áustria.
A receção foi calorosa e acolhedora. Logo ali percebi o quanto o povo e a nobreza me admirava.
Alguns meses após a minha chegada, recebi uma carta assinada pelo rei D. Filipe III de Espanha e II de Portugal, solicitando a minha presença no palácio real em Madrid.
Em Lisboa, procurei reconectar-me com a minha irmã, a única família que eu tinha. Não esperava que a vida na capital fosse tão tranquila, um cenário tão diferente ao que estava habituada.
Os Mazaganistas, como ficaram conhecidos, foram quatro ou cinco gerações de pessoas que viveram isoladas numa área de meia dúzia de hectares, em permanente sobressalto e de carência de bens de alimentação e condições de conforto, desenvolvendo uma série de subterfúgios para atenuar o tédio e a ansiedade, que caracterizou esta comunidade resistente e guerreira.
A morte do meu marido deixou em mim um amargo vazio. À medida que a guerra avançava, as condições de vida pioravam e já nada me prendia em Mazagão. Senti-me obrigada a regressar a Portugal, para poder dar um futuro melhor ao meu filho.
A notícia chegou rápido. Manuel havia morrido em batalha...
Os anos passavam e a guerra em Mazagão intensificava-se. Assim, o meu marido foi chamado para combater os infiéis, deixando-me sozinha com o nosso filho.
Eventualmente apaixonei-me por ele e começamos uma família.
O meu maior apoio foi Manuel, um soldado que me acompanhou na guerra e com quem fui viver.
Boca a boca, depressa correu a notícia pela cidade revelando que eu, famoso António Rodrigues, fora soldado enquanto donzela. Chegando a novidade aos ouvidos do governador, tive de retomar a minha vida de mulher, perdendo, assim, a minha querida Beatriz.
O que não sabiamos, era que o padre de Mazagão estaria fora do confessionário e ouvir todas as conversas e revelações feitas naquela noite.
Ao ouvir as minhas explicações, contou-me que já sabia o meu segredo. Combinámos manter o nosso romance um mistério, longe das bocas da cidade.
Revelei a minha identidade à mulher em quem pensava todos os segundos. Expliquei-lhe a minha infância e os meus motivos, porém a maior revelação seria feita por Beatriz.
Ao longo de algumas semanas, eu e Beatriz encontrámo-nos às escondidas na igreja. Várias trocas de cartas e olhares levaram-me a contar-lhe a verdade.
“Tinha tanta fama de caualleiro esforçado efta en euberta donzella que por illo & por parecer hum mancebo mui gentilhomem & de muita graça era mui bem olhado & fauorecido das donzelas de Mazagão, moormente de hua filha de hum caualleiro principal.”
“Descrição do Reino de Portugal” por Duarte Nunez do Leão, 1610
Quando a vi pela primeira vez, não consegui desviar o olhar. Todos os homens estavam fascinados por Beatriz, e quem os podia culpar? Uma mulher tão deslumbrante e educada era o objetivo de qualquer um.
Comecei a frequentar salões de baile e a receber bastante atenção feminina, mas foi uma mulher em especial que me cativou, Beatriz de Meneses, filha de um nobre português.
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